Política e Ciência Política
Política e Ciência Política: Uma distinção necessária
Uma
possível confusão entre a Política e a Ciência Política provocaria enormes dificuldades
para compreensão do que realmente é a Ciência Política, do que se
dedica, da actividade do cientista político. Por esse motivo, convém começarmos, muito
clara e rapidamente, por estabelecer as balizas que distinguem uma da outra e, para isso, nenhum autor parece-nos ser mais actual e elucidativo que Freitas do Amaral.
A
Política
“Quando o poder não é exercido por quem o
detém, depressa passa a ser detido por quem o exerce.” Diogo Freitas do Amaral
“Política”
é uma palavra que vem do grego. Na Antiguidade Clássica, a Grécia estava
dividida em cidades livres, independentes, e cidade, em grego, dizia-se polis.
Da ideia de cidade, polis, passou-se mais tarde para a ideia de Estado.
Mas a actividade de luta pelo poder e de
governo da cidade chamava-se, na Grécia, politikon, e esta palavra originou a
nossa actual expressão “política”. Etimologicamente, portanto, a Política tem a
sua origem no governo das cidades independentes, hoje Estados (AMARAL, 2014:28-29).
Frequentemente,
em qualquer esfera da sociedade, quando se procura dar resposta a uma
determinada situação, escutamos as pessoas a discutirem sobre que “política” se
deve utilizar. Quando a palavra “política” é utilizada dessa forma -
explica-nos José Fernandes - ela é entendida como a técnica, método ou
estratégia que visa “alcançar os melhores resultados com o menor dispêndio de
esforços” (FERNANDES, 2010:11). Também se diz correntemente que a Política é “a arte de governar”. Ora, a arte é um conjunto de regras práticas, o seu objecto é tornar possível acção,
o que quer dizer que nessa expressão a palavra arte é utilizada com o
significado de habilidade, intuição ou criatividade para uma certa tarefa, que
é a de governar, e não em um sentido estético.
De
facto, como já foi dito, no nosso dia a dia utilizamos constantemente o termo
política, o nosso conhecimento doméstico e as nossas experiências presenciam
determinados acontecimentos que nos permitem estabelecer uma ligação com o que
toda a gente considera ser um facto político, evidenciando, deste modo, que –
como nos diz Amaral - todos temos uma
noção mais ou menos clara do que quer dizer a palavra política.
Todos
temos noção, por exemplo, de que acontecimentos como a conquista da
independência de Angola em 11 de Novembro de 1975 (após sangrentas lutas entre
as tropas portuguesas e os movimentos nacionalistas), a posterior guerra entre
os movimentos nacionalistas pela disputa do poder, ou ainda, a realização de
eleições gerais como as que tiveram lugar no dia 31 de Agosto de 2012
constituem factos ligados a política. E como se pode perceber, em qualquer
exemplo o fenómeno é idêntico: trata-se da luta
pelo poder (segundo Marcelo Caetano, chama-se poder a possibilidade de eficazmente impor aos outros o respeito da própria conduta ou de traçar a conduta alheia),
pacífica ou violenta, e da acção para o conquistar ou para o manter (AMARAL, 2014).
Mas o poder – explica Amaral – não se procura nem se
obtém apenas para o possuir ou para dele tirar satisfação pessoal: ambiciona-se
e conquista-se o poder para exercê-lo, isto é, para governar, executando certos programas ou projectos, pondo em
práctica determinadas ideias, fazendo respeitar dados valores ou satisfazer
certos interesses. Com isso, podemos também perceber que a proclamação
unilateral da independência de Angola pelo MPLA, além de pretender possuir o
poder, pretendia sobretudo exercê-lo para, dentre outros aspectos, construir
uma sociedade socialista (os outros movimentos também pretendiam concretizar
seus interesses alcançando o poder).
Deste
modo, pelo que foi exposto, podemos apontar cinco características essenciais a
política:
1. A política diz
respeito à luta pelo poder e à maneira de o exercer, governando;
2. É uma actividade
humana de dupla natureza: por um lado, é competitiva e, por outro, é directiva;
3. Não é uma ciência, porque a política consiste, ela própria, num conjunto de fenómenos sociais, ao passo que uma ciência é uma área do conhecimento que estuda e explica fenómenos naturais e sociais (o estudo da política é uma ciência).
4. É uma realidade muito variável e em constante mutação: ocorrem recorrentemente eleições, golpes de estado, revoluções e atentados, mudanças de regime, de Constituição, de governo, de políticas económicas e sociais, etc.
5. É uma actividade de carácter profundamente contraditório, bipolar e dialéctico: é objeto de constante reflexão e debate; pressupõe luta entre pessoas, ou grupos sociais, ou países, e portanto implica divisão.
3. Não é uma ciência, porque a política consiste, ela própria, num conjunto de fenómenos sociais, ao passo que uma ciência é uma área do conhecimento que estuda e explica fenómenos naturais e sociais (o estudo da política é uma ciência).
4. É uma realidade muito variável e em constante mutação: ocorrem recorrentemente eleições, golpes de estado, revoluções e atentados, mudanças de regime, de Constituição, de governo, de políticas económicas e sociais, etc.
5. É uma actividade de carácter profundamente contraditório, bipolar e dialéctico: é objeto de constante reflexão e debate; pressupõe luta entre pessoas, ou grupos sociais, ou países, e portanto implica divisão.
Nessas
circunstâncias, a política pode então ser definida como uma “actividade humana,
em parte de tipo competitivo, tendo por objeto a conquista e a manutenção do
poder, e em parte de tipo directivo, tendo por objeto a governação de uma
comunidade humana, com vista à realização do seu bem comum” (AMARAL, 2014).
Percebendo a diferença
Como
nos diz a terceira característica, uma coisa é a Política, outra coisa é a
Ciência Política. Inspirando-se em Freitas do Amaral, podemos diferenciar os
dois elementos sob três perspectivas:
Perspectivas
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Diferenças
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Conclusão
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Política
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Ciência Política
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No plano das Actividades:
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a Política é uma actividade de
competição e direção.
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a Ciência Política é uma actividade
de reflexão.
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Com uma pretende-se agir, com a
outra saber.
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No plano dos Actores:
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A Política é feita pelos políticos
– militantes partidários, líderes políticos, homens de Estado, etc.
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A Ciência Política é cultivada pelos politólogos – investigadores,
professores, escritores, etc.
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Entre os primeiros e os últimos há
a mesma diferença que separa um músico de um musicólogo, ou então, um
astronauta de um astrônomo.
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No plano dos Objectivos:
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A Política é a actividade
desenvolvida pelos políticos, com vista à aquisição, conservação ou exercício
do Poder.
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A Ciência Política é uma área das
ciências sociais e humanas, cultivada pelos politólogos, com vista a
descrever, compreender e reflectir sobre a política, tal como é praticada
pelos políticos.
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Aquela é uma luta e uma arte, esta
é uma ciência.
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Fonte: Freitas do Amaral, 2014. Tabela elaborada pelo autor.
Podemos
assim sintetizar a definição de Ciência Política como sendo aquela ciência que
se dedica ao estudo científico da política.
Por: Walter António - Politólogo e Economista.
Referências Bibliográficas
AMARAL,
Freitas Diogo. Uma Introdução à Política.
Lisboa: Bertrand, 2014
FERNANDES, António José. Introdução à Ciência Política Teorias, Métodos e Temáticas. Porto Editora, 2010
FERNANDES, António José. Introdução à Ciência Política Teorias, Métodos e Temáticas. Porto Editora, 2010
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